quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Uma educação clássica

– Chama-se Homero – informou Nectario à sobrinha. – E em breve saberá os clássicos de cor.
Era coisa mais fácil de dizer do que de fazer, mesmo para um papagaio com tão raros predicados. Não só porque Homero tinha nascido na selva mas também porque tinha passado os anos da sua formação nos piores pardieiros e portos, antes de entrar na casa de adobes de Nectario. A sua educação ia ser um processo lento, mas Nectario não se deixava desanimar. Com um brilho de entusiasmo desmedido nos olhos, todas as noites lia ao papagaio trechos de obras seleccionadas da sua biblioteca clássica. Tinha comprado aqueles livros com fita marcadora na feira da ladra da capital, juntamente com uma estante de madeira maciça, um escabelo, um velho roupão com uma fiada de medalhas pregada e um par de pantufas de veludo – tudo porque o tinham prevenido de que era essa a única maneira de apreciar os textos literários. Mas ainda mal tinha conseguido passar do primeiro volume da Argonáutica de Apolónio quando perdeu todo o interesse e os livros foram remetidos para o esquecimento das prateleiras, onde ficaram até à chegada do papagaio.
Ao contrário do dono, a ave revelou-se uma estudiosa insaciável. As noites passadas na companhia de marinheiros e taberneiros pertenciam ao passado; agora, Homero ficava calmamente sentado durante horas a fio, a absorver com um aceno de entendido cada palavra que saía da voz maviosa de Nectario. Levava vários dias, mas o papagaio acabava por conseguir repetir capítulos inteiros de um livro, e se por acaso saltava uma página tinha uma reacção assustadora: um coaxar que tinha aprendido com um rã tropical, seguido de um furioso bater das asas coloridas.
– Está a falar línguas – dizia a sobrinha de Nectario.
– Não – corrigia-a o tio. – Isto é Heródoto no original.
– Se fosse poesia era mais difícil, tio.
Nectario fez uma festa na cabeça de Homero.
– Não há-de tardar muito até ele gostar do hexâmetro dactílico. Vais ver.
in KARNEZIS, Panos, «Uma educação clássica», Pequenas Grandes Infâmias, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2004, pp. 165-166.

3 comentários:

  1. Delicioso, deveras...
    é sempre bom ver que os gregos - clássicos ou modernos - estão a merecer a nossa atenção...

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